Protagonistas do nosso tempo

Ésquilo, conhecido por ser o pai da tragédia na Grécia Antiga, foi o primeiro dramaturgo a incluir um protagonista no teatro. Fora do palco e longe das luzes, não há escolha, o personagem principal da sua história de vida é você. Na última sexta-feira, 21 de outubro, 12 protagonistas da cultura do nosso tempo subiram ao palco do TEDxUnisinos para compartilhar suas experiências.

O evento, que ocorreu no Teatro do Sesi, em Porto Alegre, trouxe speakers nacionais e internacionais com histórias e ideias que inspiram. Há quem utilizou o momento para falar de projetos sociais, do poder do digital e de como os produtos despertam emoções no consumidor. Há quem falou do protagonismo de pessoas que influenciam na sua caminhada.

José Elias Flores Jr utilizou os 18 minutos no palco do TEDx para refletir sobre vida, morte e legado de seu pai. Diretor-presidente do Grupo Cortel, a maior organização funerária do país, Zé Elias contou sobre a trajetória do pai, que conseguiu vencer as dificuldades da infância para se tornar empreendedor. Utilizando um chapéu de quem sempre lhe inspirou, ele falou sobre a importância do afeto e carinho nesse segmento, que acolhe pessoas no momento mais difícil de suas vidas. “O único animal que tem consciência de sua finitude é o ser humano”, ressaltou Zé Elias.

Doutora em Linguística e Semiótica Ione Bentz falou sobre como foi ser mulher e profissional entre os anos 50 e 2000. “Se não nos transgredimos a sociedade não avança”, conta a professora que lutou para ser respeitada como profissional e que hoje desenvolve um projeto de pesquisa dos fundamentos do design estratégico, além de coordenar um sub-projeto de pesquisa aplicada sobre as Mulheres do Quilombo do Areal. Ione terminou sua fala emocionada ao recordar de seus momentos em sala de aula, “estar com os alunos, é estar fazendo junto”, afirmou.

O terceiro palestrante foi Edson Matsuo. O inquieto e barulhento chineleiro divertiu a plateia falando sobre sua trajetória, inspirada em duas simbologias japonesas. Designer e líder criativo de uma importante empresa do setor calçadista, Matsuo também abordou a relevância das pessoas em cada processo criativo, além dos produtos que criou ao longo da carreira. Sobre sua experiência do ramo calçadista, ele foi enfático: “Eu não sabia nada de calçado. E não sei até hoje”, brincou.

“O que vocês fariam se lhe dissessem que independente de qualquer coisa você terá câncer?”, com esse questionamento Jeanette Bronée deu início a sua palestra. Coach em Nutrição, Nutrição Integrada, Meta-medicina e Saúde, Jeanette contou que escolheu diminuir a velocidade ao notar que nossa relação com a comida está confusa e que o alimento também é um relacionamento emocional, “vivemos em um mundo que estamos conectados com todos, menos com nós mesmos”, observou Bronée. Jeanette reforçou a conscientização sobre o nosso poder de prevenir e curar doenças pelo entendimento de que nossas escolhas afetam nosso corpo, “os nossos corpos podem se curar. São inteligentes. Precisamos ouví-los”, afirmou.

Jéf foi a atração musical do TEDxUnisinos. O cantor, natural de Três Coroas, venceu a primeira edição do Breakout Brasil, da Sony, em 2014. Entre as músicas, o dono dos discos, Leve e Interior, falou como venceu a timidez para seguir no ramo. “Corajosa não é a pessoa que não tem medo, mas aquela que vai lá e enfrenta o medo”, reiterou.

A quinta palestrante foi Maíra Pimentel, carioca e jornalista, que há 12 anos desenvolve projetos de cunho social. Ela falou sobre a Tamboro Educacional, startup de educação e inovação e também sobre a responsabilidade de coordenar a implementação do programa NAVE, considerado um dos projetos mais inovadores do mundo na área de educação e tecnologia. “Aprender e ter curiosidade é algo que se desenvolve e só termina quando a vida acaba”, disse Maíra.

Daniel Duarte, executivo de inovação do SAP Labs Latin América falou sobre como a tecnologia e o futebol contribuem para um processo de mudança social. O Kickapp Cup é uma série de eventos globais que usou o futebol para promover as competências de base tecnológica em comunidades desfavorecidas. “O futebol é um esporte que consegue unir povos e culturas. Combinado com uma plataforma tecnológica e uma metodologia estruturada, podemos mudar a vida de muitos jovens ao redor do mundo”, relatou Daniel ao contar que através da combinação de futebol e tecnologia, a série também foi uma oportunidade para essas pessoas ganhassem visibilidade.

Bia Granja foi a sétima e última speaker na parte da manhã. Através de GIFs e fotos divertidas, ela fez o público voltar no tempo, lembrando com saudosismo da época do Orkut. O objetivo de Bia foi ressaltar a importância do digital ao quebrar barreiras de desigualdade na internet. A fundadora do youPIX e co-curadora da área de internet da Campus Party lembra que podemos usar a tecnologia para o bem ou para o mal. “Usamos a internet como ferramenta para mostrar realidades difíceis que não imaginávamos serem possíveis em pleno 2016”, complementou.

Professora de curso preparatório para vestibular, dançarina, circense e esportista, Consuelo Vallandro se dedica à arte há 20 anos. “Não tenho vergonha de quem eu sou. Não tenho vergonha de ser artista”, declarou a professora que foi afastada do cargo por não se enquadrar nos padrões exigidos pela instituição. “Por que nos esforçamos tanto para ser normal?”, questionou Consuelo, ao afirmar que todo mundo tem uma esquisitice dentro de si e que isso é que deveria ser considerado normal.

O holandês, Pieter Desmet, mostrou que é possível alinhar design e bem-estar. O professor e pesquisador apresentou sua pesquisa, que já dura em torno de 20 anos, e falou como os objetos podem ser projetados para provocar experiências positivas nas pessoas. Mesmo sabendo que a experiência entre produtos e emoções é verdadeira, Desmet não encontrou padrões convincentes no tipo de objetos. Ele deixou um recado para o público do TEDx: “não desconfie das suas emoções, abrace-as.”

Tainá Almeida é carioca e coordenadora do Coletivo Meninas Black Power, que discute temas relativos à população afro-brasileira em escolas públicas. Tainá contou que no início de sua adolescência, assim como qualquer outra pessoa de sua idade, procurava referências, mas não às encontrava, “não existia capa de revista teen com mulher negra”, lembrou a carioca. Nesta procura, por 10 anos alisou o cabelo. Hoje realiza atividades de produção cultural, como a oficina “Boneca preta é identidade”, onde leva bonecas pretas de pano para evidencias a gama de cores que compreende a população negra. “A partir de um fio do meu cabelo, me senti mais completa”, afirmou Tainá.

“É a natureza que está nos ameaçando? Ou será que é a nossa cultura?” A partir deste questionamento que Rualdo Menegat, penúltimo palestrante do dia, falou sobre as mudanças climáticas e as cidades gigantes. Para o geólogo e professor Unesco da Cátedra para o Desenvolvimento Sustentável, entender as estratégias de desenvolvimento e sobrevivência é uma condição para a desenvolver uma cidadania comprometida com uma ética da Terra, assim como a paz foi um tema essencial no belicoso século XX.

Jornalista, socióloga e feminista, Ana Cardoso é criadora do projeto Bonne Chance, um curso de francês e cultura senegalesa ministrada por imigrantes. Ana contou que a ideia surgiu quando viu refugiados trabalhando como vendedores ambulantes, passando calor e dificuldades, e pensou que precisava fazer alguma coisa. Ao divulgar essa ideia no facebook, a jornalista ficou surpresa com a repercussão, “não imaginava a quantidade de gente que quer aprender francês, e melhor, a quantidade de gente querendo ajudar os refugiados”, contou Ana.

O curso, inicialmente concebido para 20 alunos, hoje conta com 120 alunos, quatro professores e três mil interessados. Ao fim do evento, todos os palestrantes foram chamados ao palco, na companhia de todos que ajudaram na organização do evento para receberem os cumprimentos da plateia, encerrando assim, mais uma edição de sucesso do TEDxUnisinos.

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